Por quanto tempo você consegue manter o mesmo padrão de vida, sem ter renda?

Qualquer um de nós pode, de uma hora para outra, ficar sem a renda habitual, seja por motivo de doença, algum acidente, risco do desemprego, fechamento da empresa que é sócio, alguma licença não remunerada, afastamento do trabalho por algum problema pessoal, enfim, não somos livres de que em algum momento possamos ficar sem nosso rendimento laboral, ou seja, relativo ao trabalho.


Sabemos que nesses momentos inesperados, nossa reação normal é cortar despesas e evitar supérfluos, de forma a equilibrar o orçamento e manter o mínimo possível de gastos. Contudo, alguns gastos demoram para ter o efeito da redução e ainda tem alguns que são praticamente impossíveis de cortar, como alimentação, deslocamento, moradia, podendo até ser buscado alternativas de redução para esses.


Com o objetivo de anular ou reduzir os efeitos desses imprevistos, é recomendável que todos nós tenhamos uma reserva financeira para emergências. Talvez até pareça óbvio essa colocação, mas infelizmente as famílias brasileiras não tem o hábito de ter uma reserva para suprir a falta de renda temporária, preferindo gastar com objetos de satisfação pessoal e de renda imediata do que pensar no futuro. 


A partir do momento que possuímos renda habitual, é normal que adotemos um padrão de vida compatível com a renda. Isso é evidenciado pelos nossos hábitos de lazer, nossa moradia, nosso veículo, enfim, o perfil dos nossos gastos está ligado diretamente à nossa renda, ainda mais se dependermos de salário fixo.


Para quem possui renda variável, como profissionais liberais que atuam por conta própria, ou até mesmo empresários, vendedores, entre outros, a gestão dos gastos torna-se mais complexa, visto que a renda laboral não é fixa, podendo até ter períodos com pouca ou nenhuma entrada de dinheiro, onde nesse caso é mais relevante ter reservas para suprir períodos baixos de renda.


Para quem atua como funcionário celetista, quando é afastado ou dispensado há algumas vantagens que visam a reduzir o impacto da falta de renda. No caso de dispensa do emprego, tem o seguro-desemprego, que não deixa de ser uma renda extra, desde que observado as regras específicas. O FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) pode ser um considerado um tipo de reserva de emergência, visto que o trabalhador pode sacar quando for dispensado (Inclusive um dos objetivos do FGTS é de ter essa reserva para o trabalhador). Podemos citar também o auxílio doença e acidente de trabalho, onde o trabalhador recebe do INSS um benefício no período de afastamento, desde que sejam cumpridos os requisitos. Existe ainda no mercado alguns tipos de seguros, como seguro contra perda de renda, ou seguro de incapacidade temporária, entre outros, que são voltados aos profissionais liberais. Nesse caso, pode até ser considerado como uma reserva de emergência, porém se paga por isso.


Independente da nossa ocupação, e mesmo tendo esses benefícios sociais ou contratados (no caso do seguro), é recomendável que todos nós tenhamos a disciplina de guardar um percentual de nossa renda para investir. E a prioridade é construir a reserva de emergência, onde se pudermos ter uma reserva que cubra de 3 a 6 meses de nossos gastos, já é muito interessante.


Há três formas de definir um valor de reserva de emergência: o primeiro é somarmos todos os nossos gastos mensais e multiplicar por 6 (como exemplo de 6 meses), ou fazermos a mesma conta com base na nossa renda. Tem ainda outra opção, que é um valor arbitrado por mês multiplicado pela quantidade de meses (no exemplo 6 meses), sendo definido pela própria pessoa ou família. Nesse caso do arbitramento, o risco de a reserva não ser suficiente é maior, pois talvez não seja considerado todos os gastos mensais do orçamento.


Apresento um exemplo: se uma família tem uma renda mensal de R$ 3.000,00, sendo que desse valor reserva todo mês 10% para investimento (R$ 300,00) e o restante de R$ 2.700,00 é para gastos, a reserva de emergência que deverá ter é de R$ 16.200,00 (R$ 2.700 x 6). Nesse caso, para construir uma reserva de emergência poupando apenas 10% da renda, levará muito tempo, cerca de 54 meses (16.200,00 / 300,00), sem considerar aplicação com taxa de juros. É necessário aumentar o percentual de reserva ou ter algum aporte extra.

 

Antes de pensar em fazer reserva financeira de emergência...

 

Caso a pessoa ou a família gaste mais do que ganhe, não há como fazer reservas. O primeiro passo é analisar o orçamento e estabelecer um valor ou percentual de reservas para investir, guardar dinheiro. (Tempos atrás gravei um vídeo, onde apresentei sobre o quanto reservar para investir, você pode acessar clicando aqui). 


Para as famílias que tem valores altos de parcelas de empréstimos e financiamentos, pode ficar prejudicado a constituição da reserva de emergência. A preferência será liquidar tais operações, principalmente aquelas com taxas de juros altas, como cheque especial, cartão de crédito ou algum crédito pessoal, para após começar a guardar algum valor para a reserva. 

 

Cuidado com os desejos


Estando constituída a reserva de emergência ou quase finalizada, um dos cuidados que devemos ter é a auto sabotagem da reserva. A vontade de antecipar desejos e objetivos futuros, como compra de carro, imóvel, viagem, entre outros, pode confundirmotivar a utilização da forma errada da reserva emergencial. É necessário separarmos o que são valores investidos para aquisição de bens e o que são valores investidos para situações emergenciais. Até recomenda-se que reserva de emergência seja aplicado ou investido em contas separadas de outros tipos de investimentos que a família ou a pessoa tenha. Lembre-se  que reserva de emergência deverá ser utilizado para situações de perda de renda, não podendo ser comprometido com gastos extras e investimentos.

 

Dinheiro guardado, só se for investido


De nada adianta ter reserva de emergência e estar guardado em casa ou numa conta corrente. É recomendável que o valor seja investido num tipo de aplicação de baixo risco (resguardado o perfil do investidor), e que principalmente, tenha liquidez de curto prazo. Lembre-se que emergência pode acontecer a qualquer momento, então se o dinheiro estiver aplicado, deverá ser resgatado a qualquer momento. Além da poupança, há CDB’s que garantem uma rentabilidade maior, ainda mais se for de bancos alternativos, devendo ser cuidado o prazo de resgate (escrevi tempos atrás um artigo sobre CDB'S, veja aqui)

 

A constituição de uma reserva de emergência é a melhor forma de prevenir quanto à perda de renda ou até de patrimônio, como por exemplo o roubo de veículo não coberto por seguro. Quanto maior for a reserva, maior será a tranquilidade e menores serão as chances de recorrer a bancos, tendo que pagar juros. A recomendação é que tenha uma reserva que cubra os gastos no mínimo de 3 a 6 meses, mas caso você ou sua família não tenha, o importante é começar a poupar e investir com esse objetivo.

 

Fabio Nepomoceno - Contador e Consultor em Finanças

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