Qual a inflação interna de sua empresa?

No dia 10/01/2018, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o índice oficial de inflação de 2017, no caso o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que ficou em 2,95% no ano. O governo federal aproveitou para promover essa informação, visto que é o menor índice desde 1998, porém muitas pessoas comentam que não faz parte da nossa realidade, visto que nos parece ter sido muito maior o aumento dos preços, ou seja, a nossa inflação parece ser outra, e em alguns casos é.

Mas como é calculada a inflação oficial?

De uma forma simples e objetiva, o IPCA é um índice econômico resultante de uma pesquisa mensal de preços realizado pelo IBGE, para as famílias com rendimentos entre 1 e 40 salários mínimos, residentes em áreas urbanas. A pesquisa é feita com base na variação de preços de produtos e serviços para o consumidor final, compreendendo os seguintes itens e seu respectivo percentual de representatividade no orçamento familiar:

Alimentação e bebidas: 23,12%

Transporte: 20,54%

Habitação: 14,62%

Saúde e cuidados pessoais: 11,09%

Despesas pessoais: 9,94%

Vestuário: 6,67%

Comunicação: 4,96%

Artigos de residência: 4,69%

Educação: 4,37%

Porém, o que acontece é que em muitos casos não representa a nossa inflação, ou seja, a variação de preços dos produtos e serviços que consumimos são muito maiores, podendo depender da região do país que vivemos, ou ainda da proporção dos nossos gastos. Para as empresas, também pode ter diferença na variação de preços daquilo que se necessita adquirir, tanto de matéria-prima, como custos e despesas, para poder executar suas atividades.

Especificamente para o ambiente empresarial, apesar de termos o índice de inflação oficial como referência, podemos e até devemos calcular o índice de inflação interna da empresa, para servir como subsídio para calcular o reajuste de preços dos produtos e serviços.

Então, como calcular a inflação interna da empresa?

Assim como o IPCA mensura uma série de itens de produtos e serviços, direcionados ao consumo das famílias brasileiras, podemos identificar o conjunto de produtos e serviços que uma empresa necessita, sempre calculando de forma ponderada, pela sua representatividade no total de gastos.

Como exemplo, vamos supor que uma empresa apresentou os seguintes gastos médios mensais em 2017:

Gasto de materiais – R$ 15.000,00

Gasto com folha de pagamento – R$ 8.000,00

Despesas comerciais e administrativas – R$ 6.000,00

Despesas financeiras – R$ 1.000,00

TOTAL DOS GASTOS: R$ 30.000,00

Dessa forma, pode-se calcular a proporção de quanto representa cada gasto, sendo que os materiais representam 50% (15.000 / 30.000 x 100), a folha de pagamento 26,67% (8.000 / 30.000 x 100), as despesas comerciais e administrativas 20% (6.000 / 30.000 x 100), e por fim as despesas financeiras representam 3,33% (1.000 / 30.000 x 100), totalizando 100%.

Supondo que em janeiro/2018 tenha sido observado a seguinte variação de preços dos seguintes itens:

- Materiais: + 7%

- Gastos com folha de pagamento: + 5%

- Despesas comerciais e administrativas: - 3%

- Despesas financeiras: + 1%

Utilizando os percentuais de variação de preços dos itens e multiplicando os mesmos pelo percentual de participação dos itens no total de gastos, pode-se calcular o índice ponderado, da seguinte forma:

Material: 7% x 50% = 3,50%

Gastos com folha de pagamento: 5% x 26,67% = 1,33%

Despesas comerciais e administrativas: (-3%) x 20% = (-0,60%)

Despesas financeiras: 1% x 3,33% = 0,03%

TOTAL do índice de reajuste ponderado = 3,50% + 1,33% - 0,60% + 0,03% = 4,26%.

Então nota-se que a variação de custos e despesas no total do período, de forma ponderada, foi de 4,26%. inclusive pode ter itens que reduziram o preço, como foi apresentado no exemplo das despesas comerciais e administrativas.

O exemplo foi simplificado para entendimento. Deverá ser observado que as variações de valor para mais ou para menos dos itens devam se originários de variações de preços, e não de aumento de volume ou produção. E ainda, podem ser mais detalhados os grupos, por exemplo em materiais, podem ser separados por matéria-prima e materiais auxiliares, e sua respectiva participação no todo. Importante também colocar que deve ser estabelecido uma periodicidade de cálculo, podendo ser de preferência por mês, trimestre, semestre ou anual. 

O cálculo da inflação interna é muito utilizado como base para repasse de preços. Nesse exemplo, se a empresa receber um aumento de 7% na matéria-prima, e considerando somente esse aumento, não significa que tenha que ser passado esse percentual no produto final. O percentual de referência será de 3,50%.

Há determinadas atividades empresariais em que a inflação interna é muito maior que a inflação oficial, e ainda maior que a inflação interna de outros segmentos. Um exemplo são as empresas de transportes, onde o valor gasto com combustível representa muito mais do que uma indústria de móveis, por exemplo. Então o aumento sucessivo de combustível vai ter um peso maior no reajuste passado pela empresa de transportes, do que na indústria moveleira. E assim acontece com empresas que utilizam o aço como matéria-prima, onde esse também teve sucessivos aumentos nos últimos meses, ou ainda aquelas que necessitam adquirir material importado, tendo a variação de moeda estrangeira. Temos exemplos mais simples, de pequenos empreendimentos, como uma minimercado que necessita adquirir frutas fora de época, onde provavelmente vai pagar mais caro, tendo forte impacto no cálculo de reajuste.

A inflação por setor ou segmentada pode ser identificada por outros índices específicos, onde são mensurados gastos relativos com determinadas atividades, como por exemplo o INCC (Índice Nacional da Construção Civil), o IPA (Índice de Preços no Atacado), entre outros.

Recomenda-se que a empresa faça um acompanhamento mensal dos preços dos produtos e serviços adquiridos, e que calcule seu índice de inflação mensal, assim como temos o IPCA mensal. Faz parte do gerenciamento de custos da empresa, principalmente para poder trabalhar orçamento de vendas e gastos.

Portanto, apesar de termos um índice de inflação oficial, nem sempre ele representa a realidade da empresa. Por isso, é necessário calcular a inflação interna e negociar o repasse no preço, que não é tarefa fácil. Em muitos casos, não se consegue repassar todo o índice, sendo necessário a empresa absorver uma parte e aumentar sua eficiência, em termos de volume e redução de custos, a fim de compensar as perdas.

 

Fabio Nepomoceno - Consultor de Finanças

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