As dificuldades financeiras estão relacionadas ao momento econômico do país?

Pesquisas realizadas ao longo da última década mostram que a parcela da população brasileira com dificuldades financeiras permanece como maioria. Indicadores de endividamento e inadimplência seguem elevados mesmo em períodos de crescimento econômico. Levantamentos como a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) apontam, de forma recorrente, que mais de 60% das famílias brasileiras convivem com algum nível de endividamento, enquanto cerca de um quarto enfrenta atrasos no pagamento de suas obrigações.

 

O dado mais relevante é que as causas das dificuldades financeiras familiares não estão diretamente ligadas apenas ao desemprego ou ao cenário econômico. Mesmo em momentos de melhora da economia, o percentual de endividados raramente fica abaixo dos 50%. A contração de dívidas acima da capacidade de pagamento permanece comum tanto entre pessoas de renda mais baixa quanto entre aquelas que mantiveram emprego e salário durante períodos de crise.

 

Isso evidencia que, para muitos brasileiros, o endividamento e a inadimplência não são eventos pontuais, provocados apenas por fatores macroeconômicos, mas sim hábitos financeiros inadequados, construídos ao longo da vida.

 

O aumento consistente desses índices tem ampliado a procura por consultores, educadores e planejadores financeiros. No entanto, observa-se que boa parte do conhecimento técnico transmitido é aplicado apenas no início dos processos de orientação. Com o tempo, práticas racionais de planejamento são abandonadas e substituídas por comportamentos incompatíveis com os objetivos financeiros estabelecidos, como gastos impulsivos e aquisições não planejadas.

 

Um dos principais fatores por trás desse comportamento é a falta de desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como autocontrole, disciplina, persistência, foco em objetivos e responsabilidade. Essas competências, essenciais para a prática da educação financeira, muitas vezes são pouco estimuladas na infância e adolescência, em sistemas educacionais que priorizam excessivamente o desempenho intelectual e as notas como principal medida de sucesso.

 

Estudos internacionais reforçam essa relação. Pesquisa conduzida por Parise & Peijnenburg (2017), publicada em relatório do Bank for International Settlements, demonstrou que existe uma relação direta entre baixo desenvolvimento de habilidades socioemocionais — especialmente estabilidade emocional e conscienciosidade — e maior propensão a dificuldades financeiras. Quanto menor o nível dessas habilidades, maior a chance de endividamento e inadimplência.

 

Pessoas com instabilidade emocional tendem a apresentar comportamentos mais ansiosos e imediatistas. Sem controle emocional adequado, tornam-se mais vulneráveis a compras por impulso, deixando de avaliar a real viabilidade financeira das decisões. A pesquisa aponta que esses indivíduos priorizam gastos com itens de desejo e status, em detrimento de necessidades básicas. O resultado costuma ser a contratação de crédito com juros elevados, inadimplência recorrente, ausência de poupança e falta de preparo para a aposentadoria.

 

Já a baixa conscienciosidade — habilidade relacionada à disciplina, organização e orientação para objetivos — representa um obstáculo significativo para a aplicação prática de métodos de controle financeiro. Mesmo com acesso a técnicas e ferramentas, o planejamento não se sustenta sem consistência comportamental.

 

Diante disso, políticas de alívio financeiro e programas de educação que não incorporam intervenções voltadas ao desenvolvimento socioemocional tendem ao fracasso. Sem aprender a lidar com as causas comportamentais que originaram o problema, os indivíduos retornam ao padrão anterior e acabam reincidindo em novas dívidas.

 

Conduzir as pessoas ao reconhecimento dessas carências socioemocionais pode ser um primeiro passo decisivo para mudanças financeiras sustentáveis. A educação financeira eficaz vai além dos números: ela exige transformação de hábitos, mentalidade e comportamento ao longo do tempo.

 

 

 

 

 

Fonte: Adaptado de Administradores.com

Autora: Gicelda Moreira

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